MIOSÓTIS

 

 




Como e quando começaram os Miosótis ? 

Paulo Chagas:  Acho que foi em 1976 ou 77, não tenho a certeza. Eu e uns amigos costumávamos levar guitarras para a praia e cantávamos umas coisas. A partir daí começámos a encontrar-nos regularmente eu, o Rogério e o Jorge Pereira no meu sótão a escrever e gravar canções originais. Foi esse o início dos Miosótis. Durante esses anos entrou e saiu do grupo uma data de gente e com eles fizemos coisas originais.

 
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Gravámos uma data de cassetes e fazíamos capas e tudo como se fossem álbuns a sério. Ao todo devíamos ter umas 50 ou 60 canções dessa fase. A maioria perdeu-se porque as cassetes foram-se estragando, mas algumas ainda foram recuperadas para a fase actual.

 

Quais são as vossas influências ? 

Álvaro:  As influências são com certeza imensas se contarmos a contribuição que cada um dos elementos da banda oferece, quer a nível de composição, quer de execução. Os membros mais velhinhos da banda cresceram e aprenderam com o rock e o folk de uma forma geral (e o progressivo em particular, o jazz, a avant-garde, a erudita, a popular (e, particularmente, de intervenção) portuguesa. Se adicionarmos a isso o soul, os blues, o prog-metal e a pop que se têm vindo a juntar com os músicos mais jovens, vemos que as influências são imensas. Podíamos listar aqui, possivelmente, duas dúzias de nomes. Menos seria difícil... Gostamos de nos pensar como executantes de música portuguesa progressiva, na sua perspectiva mais ampla, claro!

 

A evolução da composição da banda contribui de alguma forma para o resultado final das músicas ?

Paulo:  É inevitável que isso aconteça. Este projecto sempre teve uma grande flexibilidade ao nível do line-up, o que foi sempre enriquecedor e fomentou a procura de soluções tímbricas diferentes. E se calhar essa tem sido uma das características mais interessantes dos Miosótis.  Na fase primitiva do grupo passámos por 6 ou 7 formações diferentes no espaço de 4 anos. Agora, desde o renascimento do projecto, em termos de palco, já vamos com 7 mudanças. Entre a apresentação do “Monstro” no show case do GAR 2005 e hoje, apenas eu e o Al nos

mantivemos.  

 

 

Caixa de texto: Álvaro: Algumas das novas músicas que estamos a preparar para a nossa próxima sequência de espectáculos foram mesmo compostas em estúdio, durante ensaios, ou então foram fortemente mexidas com contribuições de todos os membros da banda. Talvez também por isso, sentimos cada vez mais uma maior coesão estética no nosso som. 


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O Vosso 1º álbum era mais experimental, avant garde e conotado mesmo com o rock in opposittion, o 2º trabalho deram mais ênfase à melodia para aproveitamento da excelente voz da Carla, quanto a mim entraram numa fase mais artrock, o que podemos esperar do vosso 3º trabalho ?

Paulo: Não é totalmente verdade que o Monstro tenha sido mais experimental do que o Risco. O que aconteceu foi que os temas do Risco dependeram mais da  existência de uma banda permanente, o que não acontecia na altura do Monstro. No entanto  acho que pouca gente conseguiu ouvir o Risco com o distanciamento necessário em relação ao campo melódico e vocal (que de facto sobressai). Tal como anteriormente, esta é uma música com uma forte carga impressionista (e talvez subliminar) que passa facilmente despercebida aos ouvidos menos atentos.

Em relação ao próximo trabalho estamos a meio do processo criativo. Temos várias peças na estante e andamos a trabalhar nos arranjos. Tal como nos álbuns anteriores, existe alguma dispersão estética (vai haver rock, folk, jazz, bossa, klezmer), se bem que agora se consiga um todo mais coeso. Provavelmente tem a ver com o facto de andarmos a trabalhar em conjunto mais do que nunca e também devido a haver agora mais membros da banda a compor.  O próprio som global irá ser um pouco diferente, já que deixámos de usar teclas e também porque as guitarras eléctricas são necessariamente diferentes – apesar de haver proximidade estilística entre o Vasco e o Rui, as suas abordagens a sensibilidades são diferentes.

 

O 3º trabalho será lançado duma forma mais profissional como o Risco, ou voltarão às gravações caseiras, ou será mesmo só ao vivo ?

Paulo: É possível que grande parte da gravação seja feita em casa, até porque adquirimos mais competências para lidar com as dificuldades inerentes ao processo. Mas nenhuma das outras hipóteses está posta de parte; tudo irá depender de como as coisas evoluírem até lá.

 

No panorama musical português o que encontram que vos estimule ?

Paulo: Não tenho ouvido muita música portuguesa recentemente e para mim há pouca coisa realmente estimulante. Mas consigo por exemplo lembrar-me de três casos  com álbuns relativamente recentes e que oiço sempre com prazer – José Mário Branco, Brigada Vitor Jara e Amélia Muge. 

Álvaro: Pelo meu lado, idem, idem, aspas. Além dos exemplos que o Paulo já deu, o que me mais me tem entusiasmado na cena editorial portuguesa tem estado ligado ao jazz e afins. Três exemplos (a solo e em diversos outros projectos): Carlos Bica, Mário Laginha, e José Peixoto. Por outro lado, no mundo da internet, vão-se encontrando aqui e acolá projectos com alguma distintividade... Mas isso dava-nos pano para mangas...

 

 

 

 

 

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Quais são as maiores dificuldades que  a vossa banda encontra, como marcar concertos, serem aceites etc. 

Álvaro: As mesmas que qualquer outra que vive num mercado local limitado e numa indústria (a musical) em colapso. As editoras (principalmente as maiores), ao procurarem sobreviver a estas adversidades, reduziram dramaticamente o seu nível de aceitação do risco. Estão apenas interessadas em artistas que se possam rentabilizar a todos os níveis e no mais curto espaço de tempo - merchandising, publicidade, cinema/televisão, concertos e, já agora, se tudo o resto funcionar também editam o cd! Passe a ironia isto está de facto a acontecer em todos os níveis da cadeia - edição, distribuição e agendamento de espectáculos. O problema é que o mexilhão é sempre o artista! Por exemplo, ainda recentemente encontrei pelo menos três sites que vendem o download do nosso cd (sem a nossa autorização, claro!). É muito complicado... Depois são as salas que também não conseguem ou não querem arriscar muito... E a distribuição... E a promoção... Enfim, uma canseira! Por outro lado também não nos podemos queixar demasiado. Fizemos uns quinze concertos para a divulgação do O Monstro e a Sereia, que está oficialmente esgotado (restam não mais que uma dúzia de originais, fora o stock que o Mário Ferreira ainda deve ter). Com o Risco, como o próprio título o refere, arriscámos mais e investimos numa produção mais cara. Felizmente a venda de cds também duplicou face ao álbum anterior. E fizemos mais uns 15 concertos em menos de um ano. Para um projecto de originais, cantados em português e com um estilo "atípico", penso que não é mau de todo.

 

O que é o ENSO ?  Vai haver algum proximamente ? 

 Álvaro: É EMSO! Encontro de Monstros e Sereias do Oeste! Começou com o lançamento do oMeaS e vai repetir-se esta Primavera, com local definitivo ainda por confirmar. Pretende ser uma festa de amigos em torno da música dos Miosótis e da música em geral. Há sempre muita comida, vinho, filmes, fotos, surpresas e boa disposição. No primeiro que fizemos, em casa do Paulo Chagas, em Peniche, vieram amigos de todo o país. Conversou-se muito, 

tocou-se e cantou-se bastante, com muitos convidados a participar, numa jam session delirante já a meio da noite!. Foi distribuído também aos presentes (e só a eles!) o CD de outtakes Alguns Fantasmas.

 

Querem deixar alguma mensagem ao ArtRock-Portugal? 

Paulo: Para já o nosso obrigado pelo apoio que nos tem sido dado. Espero bem que o ARP cresça e se desenvolva, pois é um conceito bastante importante para a divulgação da música. Era bom que atrás deste conceito viesse a possibilidade de promover encontros entre pessoas que gostam deste género e até de dinamizar a realização de concertos.

 

Obrigado e “Melhor Sorte”* para os Miosótis, são os votos do ARP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*“Melhor sorte” – Tema do álbum Risco

 

 



 

 

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